Em mercado móvel estagnado, combinação entre 700 MHz e 3,5 GHz pode alterar a lógica competitiva e ampliar espaço para estruturas descentralizadas.
Por* Rudinei Gerhart – O mercado móvel brasileiro encerrou 2025 com 216,4 milhões de acessos (exceto IoT), crescimento líquido de apenas 0,2% no ano, segundo dados consolidados da Anatel divulgados pela mídia especializada.
Mercado maduro. Teledensidade atingiu o ápice 101,8 acessos por 100 habitantes. Nesse cenário, o crescimento é residual.
Mas a movimentação da base revela algo mais relevante que o número agregado: está ocorrendo uma migração de base para operações regionais e MVNOs.
Em mercados estagnados, a estratégia do deslocamento é mais importante que expansão.
O que muda com o leilão de 700 MHz
A devolução da faixa de 700 MHz pela Winity decorreu da inviabilidade econômica do modelo proposto após restrições regulatórias no acordo com a Vivo. O projeto dependia de escala e monetização compartilhada.
A faixa retorna agora ao mercado em outro contexto.
O 700 MHz é frequência de cobertura.
O 3,5 GHz, já detido por alguns grupos regionais, é frequência de capacidade.
Isoladamente, o 3,5 GHz exige adensamento elevado de torres para atingir cobertura ampla, o que encarece o CAPEX e compromete a viabilidade de uma operação SMP consistente.
A combinação das duas frequências altera essa equação técnica:
- 700 MHz reduz drasticamente o custo por área coberta.
- 3,5 GHz entrega performance e capacidade 5G.
- Juntas, tornam economicamente possível uma operação regional robusta.
Já havíamos defendido amplamente esse tema em 2021.
Quem pode vencer — e qual será o provável desdobramento disso
Entre os potenciais interessados estão grupos com perfis distintos.
Brisanet e Unifique já possuem operação B2C consolidada, infraestrutura fixa relevante e experiência comercial em larga escala.
Iez! e Amazônia 5G são estreantes no mercado B2C e ainda não possuem base massiva consolidada.
A Ligga atravessa momento societário de reavaliação estratégica.
Ou seja, não se trata de um bloco homogêneo de competidores consolidados.
A reorganização do mercado não depende exclusivamente de quem vencer, mas do modelo de negócios que será adotado após a vitória.
O modelo provável
Assim que os operadores regionais assumirem lotes do 700 MHz, a tendência mais racional não é verticalizar integralmente a operação.
É estruturar:
- CORE centralizado.
- Cumprimento das obrigações de cobertura.
- Abertura técnica e comercial para exploração regional por terceiros (MVNOs).
Na prática:
- O detentor da frequência constrói o CORE e o modelo de compartilhamento com provedores regionais.
- Provedores regionais passam a operar sob essa estrutura, contribuindo para a construção da infraestrutura.
- Parte deles deverá construir RAN local complementar.
- A comercialização ocorre com marca própria e integração fixo-móvel.
Não se trata de criar um novo player nacional.
Trata-se de habilitar centenas de operações regionais sob uma mesma espinha dorsal espectral.
É um modelo de coordenação descentralizada.
Por que isso tende a acontecer
O mercado fixo já demonstrou que os provedores regionais possuem eficiência operacional e proximidade com o cliente superiores às grandes estruturas nacionais em municípios médios e pequenos.
A única barreira estrutural ao SMP sempre foi o acesso ao espectro.
Se essa barreira se transforma em plataforma compartilhável, o incentivo econômico para entrada regional aumenta substancialmente.
E, em mercado móvel estagnado, qualquer nova oferta regional tende a capturar base existente, não demanda reprimida. Não há dinheiro novo, enquanto o uso for commodities (GB, minuto e SMS).
A variável estratégica que pode alterar o desfecho
Existe, porém, um fator pouco discutido.
As operadoras incumbentes ainda controlam o ativo mais valioso do setor: escala e infraestrutura já amortizada.
Se optarem por fortalecer MVNOs estruturadas que operam diretamente com o ecossistema regional, e não tratarem MVNO apenas como canal marginal, podem antecipar e organizar essa descentralização sob sua própria órbita.
MVNO relevante pode:
- Integrar provedores regionais ao SMP existente.
- Oferecer modelo comercial sustentável.
- Reduzir o incentivo à construção de infraestrutura paralela.
- Manter coordenação sob estrutura já estabelecida.
Ou seja, a descentralização pode ocorrer de duas formas:
- Coordenada por novos detentores de 700 MHz + 3,5GHz; ou
- Organizada pelas próprias incumbentes via MVNO robusta.
A diferença está na iniciativa.
A história comprova que as incumbentes são conservadoras nesse sentido, e sua letargia custou a perda do domínio no acesso banda larga, será que repetirão essa mesma postura com o móvel?
O leilão de 700 MHz não necessariamente criará um novo competidor nacional.
Mas pode viabilizar uma arquitetura que permita a multiplicação de operações regionais no SMP.
Esse movimento não seria abrupto. Seria progressivo.
E, em mercado maduro, progressão sustentada é o que redefine participação.
A trajetória não está determinada.
Ela dependerá das decisões estratégicas tomadas no período imediatamente posterior ao leilão.
A descentralização do espectro abrirá a porta de um mercado concentrado pelas barreiras de competição.
A depender dos próximos movimentos, a história muda.
FONTE: TELE.SÍNTESE
