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Luciana Camargos, diretora de espectro da GSMA, disse em entrevista ao TELETIME durante o MWC 2026, que aconteceu esta semana em Barcelona, que embora os serviços em 5G estejam bem encaminhados no Brasil, é imperativo “pensar adiante” e planejar o futuro do espectro, sobretudo pensando nas novas gerações tecnológicas, na evolução do mercado e no 6G.

A visão da GSMA aponta que a chegada mais robusta do 6G deve acontecer apenas a partir de 2035. No entanto, diz ela, a demanda por espectro será significativa. “A gente lançou um relatório de necessidade de espectro para a década seguinte, então a gente olha até 2040 para ver quanto de espectro seria necessário para o 6G,” revelou Camargos, estimando uma necessidade de “entre 2 e 3 GHz de banda em faixas médias” (entre 1 e 8 GHz). As faixas de 6 GHz, 7-8 GHz e 4,5 GHz são as principais candidatas para abrigar as futuras tecnologias, diz ela.

No cenário brasileiro, a diretora da GSMA destacou a urgência da faixa de 600 MHz para a conectividade rural. “Eu acho que faz todo sentido (buscar esta faixa),” afirmou Camargos sobre a necessidade de direcionar esta faixa no Brasil aos serviços móveis, ainda que ela esteja hoje vinculada à radiodifusão. Para ela, “a brecha entre a conectividade que você tem nas cidades e a conectividade que você tem em áreas rurais está aumentando.” A liberação dos 600 MHz, impulsionada pela diminuição do uso da televisão terrestre e pela discussão da TV 3.0, é vista como uma “excelente oportunidade” para endereçar essa lacuna na opinião da diretora da GSMA.

Impactos do D2D

Um ponto de preocupação em vários países reside na expansão dos serviços de satélite Direct-to-Device (D2D) em faixas móveis. A intenção de empresas de satélite de ampliar o uso da Banda S (1.9 e 2.1 GHz), o que é visto pela GSMA com ressalvas. “Eles querem expandir a banda S,” alertou Camargos, “mas existe sobreposição com a faixa do 3G, que é utilizada por 5,8 bilhões de pessoas no mundo. Então, é uma faixa muito difícil de compartilhar”. A GSMA monitora de perto as discussões para a próxima WRC, de 2027,  justamente para evitar arranjos que possam causar interferências nos serviços terrestres já estabelecidos.

Gestão de espectro: inovação difícil

Sobre a necessidade ou não de novos modelos de gestão de espectro para ajudar a acomodar as crescentes demandas que virão com a ampliação dos serviços móveis atuais, a entrada de novos players e as necessidades futuras com o 6G, Luciana Camargos tem uma visão mais cética. “Eu vou ser conservadora nessa resposta. Eu acho que a gente tentou tantos modelos inovadores e a gente volta para a licença tradicional,” ponderou, citando o exemplo do CBRS nos EUA como um modelo que se mostrou inadequado.

No entanto, o Brasil é elogiado por sua abordagem inovadora de vincular as licitações de espectro a obrigações de políticas públicas. “O Brasil é um exemplo para a gente quando a gente conversa com o resto do mundo,” destacou, ressaltando a tendência global de priorizar o benefício social sobre a mera arrecadação.

Mercado secundário

Já comercialização secundária de espectro (Spectrum Trading), com a possibilidade de que diferentes detentores de licenças de espectro comercializem entre si as faixas ociosas, é vista como uma ferramenta útil, mas não uma panaceia. “É interessante o Spectrum Trading, ele tem o benefício, mas ele é só uma ferramenta,” disse Camargos.

No Brasil, existe um movimento de algumas empresas de radiodifusão de buscarem essa comercialização secundária diretamente com empresas de telecomunicações, como aconteceu em outros mercados. “O desafio que o Brasil vai ter é encontrar essa expectativa dos radiodifusores com que a indústria, e com que será sustentável para a indústria de telecom pagar,” explicou. Ela lembra que tem havido uma queda nos preços das faixas de espectro mundialmente desde 2014 e que as expectativas de altos ganhos com licenças de espectro devem ser recalibradas.

A diretora da GSMA comentou, contudo, o sucesso da migração da TVRO no Brasil da Banda C para a Banda Ku, um processo que foi positivo tanto para radiodifusores quanto para empresas de telecom. “A solução brasileira para liberar a banda C virou modelo para países na Ásia e América Latina com o mesmo desafio,” concluiu Camargo, indicando que a experiência brasileira serve de referência para outras nações.

FONTE: TELETIME