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A Abrint, que representa os pequenos provedores de Internet, está preocupada com o recente aumento nos preços dos cabos de fibra ótica, especialmente o cabo drop, em decorrência das medidas anti-dumping aplicadas pela Gesex.

Segundo Breno Valle, presidente da Abrint, já foi detectado um aumento médio de 80% no preço do cabo drop, que costuma pesar cerca de 30% no custo de instalação, além de ser item de manutenção permanente nas redes de telecom dos pequenos provedores.

Segundo ele, isso impacta diretamente o custo de aquisição de clientes. Essa elevação de custos está forçando os provedores a passarem a cobrar a taxas de ativação, algo que antes não era cobrado.

A entidade alerta para a insustentabilidade do modelo atual e a possível falta de produto, que pode acontecer se a indústria nacional não der conta da demanda.

Imprevisibilidade regulatória

Outro ponto de preocupação da Abrint, que falou com TELETIME durante o Mobile World Congress (MWC) 2026, que aconteceu esta semana em Barcelona, é a percepção dos ISPs sobre um aumento da imprevisibilidade regulatória por parte da Anatel.

Breno Valle afirma que os provedores têm sofrido inúmeras incursões regulatórias com impacto negativo. Ele cita, por exemplo, a decisão da agência de terceirizar a fiscalização de segurança do trabalho (Artigo 43 do Regulamento Geral de Serviços de Telecomunicações).

Essa medida é especialmente criticada pela Abrint, que argumenta que os acidentes graves ocorrem majoritariamente com empresas terceirizadas de grandes operadoras, e não com pequenos provedores.

Basílio Perez, conselheiro da associação, aponta que os custos dessa fiscalização são excessivos: “começa de R$ 2 mil, R$ 3 mil e chega a R$ 12 mil, R$ 13 mil”. Para Breno Vale, é um problema o fato de que não existe no regulamento “uma previsão de precificação disso. Não existe um preço”.

Diante da falta de diálogo, a judicialização da questão é vista como um caminho inevitável. A Anatel, vale lembrar, tem sido muito enfática em afirmar que esse esforço é importante para regularizar o mercado e assegurar que as operadoras atuem em condições isonômicas de mercado.

Mercado competitivo

No cenário de mercado, A Abrint reconhece que hoje existe uma intensa “canibalização dos preços”, o que tem levado a um movimento de reajuste das mensalidades para garantir a sustentabilidade dos negócios. Nesse contexto, a consolidação está no horizonte da maior parte das operadoras, mas ele admite que tem sido complicado ampliar o mercado.

Hoje, a Starlink é a operadora que consistentemente mais cresce na banda larga fixa, atrás apenas de Vivo e Claro. Mas esse crescimento não tem afetado os provedores, diz Valle. Trata-se de uma solução complementar, especialmente em áreas remotas e de difícil acesso, e não como uma concorrente direta para a fibra.

“Eu não tenho notícias de nenhum provedor que perdeu cliente para a Starlink”, afirmou o presidente da Abrint, apontando que “o preço da Starlink não dá para competir diretamente com o operador de fibra”.

“Acessa crédito” para novos serviços

A Abrint vê com otimismo as novas políticas de acesso a crédito destinadas aos pequenos provedores. Breno Valle acredita que essas políticas “vão dar um fôlego, principalmente porque ele fez um corte para os realmente pequenos”.

A expectativa é que esses recursos não sejam utilizados apenas para a construção de redes, mas principalmente para a diversificação de serviços, como a criação de MVNOs (Operadoras Móveis Virtuais) ou pequenos data centers.

Valle explica que o provedor “vai pegar esse recurso não apenas para construir rede, mas também para colocar outro serviço junto com a rede dele. É agregar serviço junto com a rede que ele já tem”, garantindo um respiro financeiro e uma vantagem competitiva no mercado.

Testes de convivência no 6 GHz

A disputa pelo espectro de 6 GHz para Wi-Fi permanece uma pauta central para a Abrint. Breno Valle revela que “a associação ainda não perdeu a esperança” sobre a possibilidade de usar uma fatia maior da faixa, ainda que já considerem inevitável a divisão com o IMT (telefonia móvel).

“A gente está contratando um estudo do Inatel para fazer um estudo de convivência na parte alta. Queremos avaliar se existe a possibilidade de utilizar em ambientes internos uma porção maior do espectro”.

Com as faixas de 2,4 GHz e 5 GHz já saturadas, a entidade defende a liberação total da faixa de 6 GHz para o Wi-Fi, argumentando que o avanço tecnológico exige mais espectro para evitar gargalos. Basílio Perez alerta que “o que é muito ruim no Brasil se o Wi-Fi do Brasil for cortado”.

A proposta é utilizar o mecanismo de Coordenação Automática de Frequência (AFC) para garantir a “convivência pacífica”. Para demonstrar a viabilidade dessa solução, Breno Valle anuncia a realizaação de um teste de utilização e de convivência no evento anual da associação, o AGC, com acompanhamento de técnicos da Anatel. O evento acontece no início de maio, em São Paulo.

FONTE: TELETIME