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Na análise anual sobre o mercado de satélites realizada pela Analysys Mason, uma das principais consultorias do mercado de satélites, durante a Satellite 2026, que acontece esta semana em Washington, os destaques não foram números de crescimento ou queda de determinados segmentos, como tradicionalmente acontecia. Na visão da consultoria, o duopólio entre Starlink e Amazon é uma dado que não pode mais ser ignorado no mercado corporativo e residencial, com exceção, talvez, da concorrência das empresas chinesas.

Já aos atores tradicionais e novos entrantes, a prioridade devem ser os mercados de nicho, que são relevantes e ganham espaço com aplicações D2D, IoT e governamentais, sobretudo dentro da agenda de soberania.

“O que vemos hoje é uma corrida entre Jeff Bezos e Elon Musk”, disse Lluc Palerm, analista da Analysys Mason. “A capacidade combinada das constelações é muito grande, dificilmente vai ser superada pelos competidores em capacidade e preço”, diz. Para ele, diante dessa dinâmica polarizada, as barreiras ficam elevadas aos concorrentes, sobretudo pelo fator da verticalização tecnológica e escala de preços.

“Vai ser difícil competir com eles nos segmentos tradicionais, mas existem oportunidades em aplicações com foco em soberania, IoT, atendimento às big techs. A partir de agora, cada vez mais as constelações precisarão ser construídas com um caso de uso em mente”, diz.

Capacidade imbatível

A expectativa é que a Starlink consiga uma capacidade de 2.755 Tbps com todas as constelações já previstas (sem contar a constelação para datacenters, projetada em 1 milhão de satélites). A Amazon, contando Amazon LEO e TeraWave, deve chegar a 610 Tbps. Hoje, a concorrente mais próxima (OneWeb) tem 3,6 Tbps de capacidade, segundo a leitura da Analysys Mason. 

Segundo Palerm, esse cenário é especialmente desafiador porque trava a cadeia de suprimentos, de modo que os demais operadores terão que concorrer em mercados em que a equação preço/qualidade é determinante. Os mercados para as ofertas tradicionais, diz Palerm, são o mercado de resiliência e redundância, revenda LEO, oferta de serviços gerenciados, agregação de serviços, serviços baseados em requerimentos de soberania.

Mas ele também apontou alguns caminhos mais inovadores para operadores tradicionais, como o desenvolvimento de constelações small-GEO, data center orbitais e quantum computing. 

D2D

Outro tema da moda apontado pela Analysys Mason como importante para operadores de satélites é o mercado de direct-to-device, mas ele chama atenção para um componente regulatório complexo que ainda precisará ser enfrentado, que é a miríade de definições de espectro, em nível regional e local, que hoje afeta as estratégias. 

Outro problema é o limite de capacidade de conexões. Mesmo a Starlink, com o máximo de sua frota dedicada a D2D em órbita, terá um limite de não mais do que um ou dois milhões de usuários.

Outro problema é em relação a quem estará disposto a pagar mais por isso. Segundo a Analysys Mason, há um interesse crescente dos usuários em aplicações D2D, com percentuais já passando dos 70%. Mas para conexões D2D de mensagens, apenas 16% dos usuários mostram disposição para pagar. Para conexões de banda larga, 27% topariam pagar um valor extra para estarem conectados via satélite.

Outro problema sério é espectro, já que para aplicações de maior capacidade será necessário utilizar parte do espectro terrestre, e isso vai investir das operadoras de satélites investimentos massivos. Um dos aspectos desta disputa foram os investimentos de mais de US$ 19 bilhões feitos pela Starlink em espectro.

Para o analista da Starbridge Venture Capital, Michael Mealing, que participou de outro painel, “o investimento da SpaceX em espectro se paga se for feito de uma maneira completamente e totalmente verticalmente integrada do que se faz hoje, de uma maneira totalmente diferente e inovadora”, diz ele, sem detalhar como seria esse modelo.

FONTE: TELETIME